Exposição “Jamaica, Jamaica!” chega ao Brasil!

O trabalho dos artistas, músicos e produtores em prol da música reggae no Brasil está ganhando força. Além de termos oportunidades de vermos grandes artistas se apresentando por aqui, agora teremos a chance de ver muito próximo a nós, grande parte da gigante e linda história da música jamaicana. A partir do dia 14 de março, chega ao Brasil a exposição “Jamaica, Jamaica!”.

Concebida pela Cité de La Musique – Philharmonie de Paris e realizada pelo Sesc São Paulo, a exposição estará no Sesc 24 de Maio até o dia 26 de agosto de 2018. Com curadoria do jornalista e diretor cinematográfico francês Sébastien Carayol, a mostra também contou com o auxílio de um grupo de curadores brasileiros mostrando desdobramentos e impactos da cultura da Jamaica no território brasileiro

A “Jamaica, Jamaica!” busca reconhecer parte da história por meio do olhar para os conflitos e encontros pós-coloniais que levaram a um movimento musical único e universal. Para ilustrar a diversidade e patrimônio, a mostra será dividida em núcleos e reúne fotografias, capas de álbuns, instrumentos musicais, folhetos, materiais gráficos das festas de rua, documentos, áudios e imagens de coleções particulares e instituições.

Os núcleos da “Jamaica, Jamaica!”

1. 400 Anos – Música Rebelde: A Herança Múltipla da Escravidão

Desde a chegada de Cristovão Colombo na Jamaica, em 1494, muita história aconteceu. Ocupada pelos espanhóis até 1655, foi invalidade pelos Ingleses. A ilha se tornou a central econômica do Caribe e rota para o tráfico escravista. Muitos africanos levados para trabalho forçado na ilha, principalmente nos campos de cana de açúcar.

Com a forte resistência e sentimento de unidade africana, surgiram cultos religiosos que influenciaram muito o nascimento da música jamaicana. Desse cenário religioso e musical, surgiu o “mento”, conhecido como a forma mais antiga da música crioula jamaicana, nascido no século XIX como uma forma de música folclórica rural.

O mento é uma fusão das heranças da escravização, retiradas tanto das canções e das danças da África Ocidental como dos costumes coloniais da época, a exemplo da Quadrille – uma dança da sociedade europeia. O seu apogeu se deu na década de 1950, deixando o caminho aberto para o estilo conhecido como “ska” – que explodiu na cena musical.

2. Ska Da Independência! – A Trilha Sonora da Independência

Já bastante musical, a Jamaica tornou-se independente em 1962 e a alegria do povo acabou sendo um grande influenciador no nascimento do “Ska”. O ritmo nasceu como uma forma genuinamente jamaicana de interpretas o Jazz e R&B americanos.

Neste período, a excelente escola de música Alpha Boys foi um dos alicerces para a formação de excelentes músicos. Muitos deles, acabaram formando o Skatalites, um dos primeiros grupos jamaicanos a fazerem sucesso na ilha e fora dela.

A escola continou sendo importante e muitos nomes passaram por lá. Israel Vibration, Cedric Brooks, Vin Gordon, Leroy “Horsemouth” Wallace, Leroy Smart, Yellowman, Leslie Thompson (o primeiro maestro negro da Orquestra Sinfônica de Londres) também possui histórico por lá.

3. Hey Mr. Music! – Studio One, The Black Ark e o estúdio de King Tubby: Um Circuito de Produção como nenhum outro no Mundo

O início da cultura dos sistemas de som e a necessidade de músicas exclusivas impulsionaram o surgimento de estúdios pela Jamaica. A música passou a ter forte influência na vida política, social e econômica da ilha.

Eis que surge Coxsone Dodd e o Studio One, o primeiro estúdio de um negro. Foi de lá que nomes como The Wailers, Burning Spear, Alton Ellis, Ken Boothe, Ras Michael e muitos outros iniciaram suas carreiras.

No meio desta efervecência musical também surgiu Lee “Scratch” Perry. Perry é o fundador do lendário estúdio Black Ark e, lá, inventou uma série de técnicas de produção e gravação que são usadas até hoje. Outro destaque deste núcleo são os materiais do King Tubby, um dos produtores que inventou o dub.

4. Sound The System! – O Verdadeiro Instrumento Musical da Jamaica

Na década de 50 a popularização do rádio e o surgimento dos sistemas de som começou a trilhar os caminhos para a indústria musical jamaicana. Tom The Great Sebastian (Tom Wong), V Rocket, The Trojan (Duke Reid), Coxsone’s Downbeat (Coxsone Dodd) e Voice Of The People (Prince Buster) são os primeiros sistemas de som a construir o seu público. Nesta seção, muitos artigos e artes dos sistemas de som.

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Junior Reid e o King Jammys Super Power (Foto: Beth Lesser)

5. Black Man Time – Os Destinos Entrelaçados de Jah Rastafari e Marcus Garvey

Este núcleo retrata as identidades de Haile Selassie, o Rastafari, e Marcus Garvey. Duas personalidades extremamente importantes para o estabelecimento da cultura Rastafari na Jamaica e para a história de resistência negra no mundo.

No final da década de 1960, alimentados pela determinação em derrubar o sistema de escravização e colonialismo, os rastafáris transformam o reggae em um grito de orgulho militante, sedicioso e místico, para reafimar seus laços com a África e seus antepassados.

Por conta da repressão violenta na Jamaica colonial, os primeiros rastafáris se refugiam nas colinas em torno de Kingston, onde desenvolvem um tipo de música chamado “Nyabinghi”, sob a influência do percussionista Count Ossie (1926-1976).

Os percussionistas rastafáris criam seu estúdio em 1960 e promovem encontros intitulados “groundations”, liderados por um trio de tambores – baixo, funde e repetidor – cujos ritmos parecem seguir os batimentos cardíacos.

6. Viemos de Trenchtown – Bob Marley, The Wailers e as Violências Políticas na Jamaica

Este núcleo presta as devidas homenagens ao Wailing Wailers, grupo fundamental para a expansão da música jamaicana no mundo. Não só na figura de Bob Marley, como também de Peter Tosh e Bunny Wailer.

Em 1972, a banda assina o contrato com o selo de Chris Blackwell, chamado Island. O fim do grupo se dá por conta de tensões criadas pelo fato de o selo projetar apenas o cantor Bob Marley – que acaba apresentando Kingston para o mundo antes de sua morte, em 1981.

As marcas das violências acabam transformando a guitarra em forma de metralhadora e um dos símbolos da música reggae na época e veio a ser, também, um ícone de rebeldia e militância. Fica conhecida nas mãos de Peter Tosh; originalmente criada e utilizada pelo californiano Bruno Coon, do grupo de rock Prairie Fire, a guitarra é vendida para Tosh por 550 dólares após um show em Los Angeles, em 1983. Este instrumento é uma das peças emblemáticas da exposição.

7. Estilo Dancehall – A Música Jamaicana Depois de Bob Marley

Com a morte de Bob Marley, em 1981, a música jamaicana perde um dos seus grandes representantes internacionais. Ao mesmo tempo, uma nova vertente do reggae começa a tomar força nos guetos da ilha: o dancehall. Distante da espiritualidade rastafári de outrora, este novo som narra a vida na cultura do sistema de som, concentrado na beleza e no corpo.

Dentro da difícil situação econômica da ilha caribenha, o dancehall surge como uma opção de diversão e entretenimento. Assim, se criam novos códigos, um movimento musical e corporal, nascido nas pistas de dança ao ritmo dos sistemas de som.

8. Mistério Sempre Há De Pintar Por Aí: Um olhar sobre a trajetória do reggae no Brasil

Este núcleo é uma homenagem direta à cultura reggae no Brasil. Algo além do que mostrado na exposição que ocorreu na França.

A influência da cultura jamaicana se estabelece e recria, a partir de 1970, no Maranhão, com discotecagens em festas populares; na Bahia, com Gilberto Gil e Lazzo Matumbi, além do nascimento do Olodum, em 1979 e do Muzenza, em 1981, que deram origem ao samba reggae. Entre as décadas de 80 e 90, surgem as bandas autorais, como a Tribo de Jah, além de movimentos de protesto social ligado ao reggae, principalmente no Recôncavo Baiano, dando origem aos artistas Edson Gomes, Nengo Vieira e Sine Calmon.

Da cena alternativa ao pop, com uma estética consolidada popularmente e na indústria cultural, em 2000 as festas de dub e dancehall passam a fazer parte da vida noturna de São Paulo. Tão logo, o sound system – Dubversão – entra em cena nas ruas do centro e da periferia da cidade.

A Rádio Jamaica!

Para complementar a experiência da exposição, uma estação de rádio poderá ser acessada pelo portal Sesc São Paulo.

Em 1959, a primeira estação de rádio local que se tem conhecimento, a JBC – Jamaica Broadcasting Corporation -, fundada por um dos arquitetos da independência jamaicana, Norman Manley, tornou-se a primeira estação nas ondas da ilha a concentrar-se mais na música jamaicana do que no jazz americano e no rhythm and blues.

O rádio, então, se apresenta como uma fonte de orgulho para os jamaicanos, por ser o primeiro elo na cadeia de produção da indústria fonográfica: os shows de talentos ao vivo em rádio possibilitaram a criação do cenário e estabelecimento de uma indústria musical jamaicana.

Com esse recorte histórico, a Rádio Jamaica, se integra a exposição e apresenta uma série de músicas, sons e playlists, onde é possível trazer o próprio fone ou ouvir em diversos dispositivos eletrônicos.

Jamaica, Jamaica!

Curadoria: Sébastien Carayol
Curadoria Brasileira: Caio Csermak, Camila Miranda, Dj Magrão, Lys Ventura, Rodrigo Brandão e Stranjah
Abertura: 14 de Março, às 20h
Visitação: 15 de março a 26 de agosto de 2018
Horários: Terça a Sábado, das 9h às 21h
Domingos e Feriados, das 9h às 18h
Local: Sesc 24 de Maio – Espaço Expositivo (5º andar)
Entrada livre!


Envie suas ideias e/ou sugestões de pauta para rockerstimenow@gmail.com

Leonardo Silva [Jah Leo]

Leonardo Silva [Jah Leo]

Iniciei minhas atividades no reggae ao ser um dos fundadores o Reggae pelo Reggae em 2012, onde atuei até Julho de 2016 como Diretor de Conteúdo. No começo dos estudos sobre reggae, me encantei com a cultura dos sistemas de som, fiz parte do Vietcong Promotion até que decidi construir o Leão Conquistador. Também fundei o Rockerstime e a Subcultura, loja online de discos de vinil que distribui para todo o Brasil.
Leonardo Silva [Jah Leo]