As raízes e cultura do selo Huba Records

Apesar de territorialmente ser um dos menores países da Europa, o trabalho dos portugueses vem afirmando o país como um importante polo da cultura dos sistemas de som na Europa. O país já contabiliza ao menos 7 grandes sistemas de som, são eles: Youth Culture Hi Fi (Porto), Backyard (Aveiro), Simply Rockers (Lisboa), Roots Dimension (Lisboa), MysticFyah (Lisboa), Rig Smith (Faro), NuBai (Lisboa).

Seguindo o processo natural da música reggae, o estabelecimento dos sistemas de som permitiu que a cultura evoluísse no país e a partir daí começassem a aparecer cantores e produtores. Todos contribuindo com o movimento, lançando seus trabalhos e se conectando a outros vários cantores e produtores. Continuando a evolução, não tardou muito para aparecer os selos, responsáveis por lançar artistas e contribuir ainda mais para as conexões.

O Cubículo é um selo português que já tem o seu respeito e se destaca como um dos principais no mundo a lançar reggae digital. Outro que vem ganhando o seu devido destaque é o Huba Records, fundado em 2014 por João Gonçalves a.k.a. Joydan, que também é um dos integrantes do Simply Rockers Sound System.

Em 2015 o selo estreou com o single “No Fruits”, com riddim produzido pelo próprio Joydan e cantado por Trevo Roots. O single teve uma boa aprovação do público e suas 300 unidades hoje estão esgotadas. Como todas as dificuldades de um trabalho independente, o selo seguiu resistindo e em 2017 lançou o single “African Roots”, cantado por Sista Awa e que também contou com um riddim produzido por Joydan.

Apesar dos poucos anos de atividade, sem dúvidas o Huba Records merece destaque. Com raízes profundas nos anos 70’s do reggae, o produtor Joydan consegue trazer suas influências em um som moderno, adaptado ao público atual a à realidade das danças Europeias, inna steppa style! No Brasil, já é possível escutar os singles em grande sistemas de som como o Dubversão (SP).

A história de Joydan não foi muito diferente de várias outras histórias das pessoas que ingressaram no universo reggae. Jovens, tiveram o primeiro contato com a música de maneira tímida mas logo foram conquistados pelo espírito revolucionário do gênero. Pouco a pouco, Joydan, que também é cantor, vai solidificando o seu trabalho como produtor. O trabalho do Huba será comercializado no Brasil pela Subcultura e em breve será possível encontrar na loja especializada o segundo lançamento do selo.

Fizemos contato com o produtor, que nos contou com um pouco mais de detalhes toda a sua vivência até agora e o que ele tem em planos para este 2017 e também 2018. Assim foi a entrevista com Joydan…

Reasonin’

[RockersTime] Como foi que você começou a escutar reggae?

Joydan: “Tinha 14 ou 15 anos. Descobri na coleção de discos do meu pai o clássico “Uprising”, de Bob Marley & the Wailers. Embora estivesse exposto a diferentes gêneros musicais, sem dúvida foi um dia marcante para mim, pois moldou a minha vida. Uma vez exposto à música de Bob, rapidamente descobri nomes como Black Uhuru, Gladstone Anderson, Kiddus I e vários outros, especialmente a era dos anos 70.

Sempre adorei pesquisar, aprender mais de um disco, chegar a mais artistas. É um mundo sem fim. O conteúdo lírico também teve um impacto muito forte na minha vida. O lado espiritual, sociopolítico da música mudou a forma como via o mundo e a música. Desde então, tem sido uma busca interior, trabalho e uma jornada contínua.”

Quando foi que decidiu desenvolver atividades no reggae? Como foram essas atividades?

“Talvez por volta de 2010/2011, quando conheci uns brothers da minha área que tinham um coletivo de selectas, nos subúrbios de Lisboa. Então, comecei o meu contato mais de perto com essa realidade e ter a ideia de que um dia seria interessante fazer o mesmo. Já colecionava discos e parecia algo a se fazer no futuro, mas sem grandes planos.

Um ano depois, juntei-me a um coletivo chamada R3Soldiers onde era o MC e selecta, junto com mais dois brothers (Jah Milton e Larose). Tínhamos um trabalho bastante ativo em Lisboa, onde fazíamos sessões de roots reggae com mc’s a fazer rub a dub. Íamos à clubs e bares locais, também participávamos com sound systems locais e fomos aperfeiçoando nosso trabalho. O projeto acabou por terminar e comecei a produzir riddims. Aos poucos adquiri materiais para produção. Foi durante esse período que surgiu a minha primeira ideia e vontade de criar um selo, uma plataforma que me permitisse lançar música. Fui começando a pensar todo o conceito aos poucos.

No final de 2014, me juntei ao Simply Rockers Sound System como singjay e membro do grupo. Tive a chance de atuar junto com nomes como Aba Shanti, Channel One e vários outros. Fui aprendendo a parte mais técnica do sound system. Desde o começo tem sido e irá a continuar ser um aprendizado sem fim, tanto espiritual quanto social. Acredito que a música tem o mesmo poder de unir e trazer as pessoas mais perto umas das outras. Partilhar ideias e curar um pouco de nós mesmos e outros através dela.”

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Joydan em sessão no home studio!

Quando foi que você começou o selo?

“Oficialmente o selo começou em 2014, quando já tinha a visão do que ia ser embora seja algo em constante evolução. Em 2015, foi o ano do primeiro lançamento, com o single “No Fruits”.

Com o primeiro riddim produzido, procurava a voz certa para finalizar o tema. Tive a chance de conhecer Trevor Roots através de trabalhos que tinha editado pela Nucleus Roots, da Inglaterra. Daí a vibração fluiu e o tema foi finalizado. É então nesse ano que após o tema ser gravado, tive a chance de conhecer o Paul Lush (Nucleus Roots) e também o Trevor, quando fui finalizar em Manchester (ING) a mix do primeiro 7″ do Huba Records.”

Você pretende lançar apenas suas produções no Huba Records?

“O Huba Records começou da vontade de ter uma plataforma e um selo para poder editar música em formato físico, juntando músicos para colaborar em diversos tunes. Na verdade, sempre tive vontade de lançar temas de outros artistas e produtores, enriquecer o selo e poder oferecer aos nossos ouvintes um leque maior de lançamentos. O objetivo é fazer chegar música às pessoas.

Passo a passo acredito que novos projetos vão surgir no selo, tudo é uma possibilidade. Só Jah sabe o caminho que tem reservado para cada um de nós. De momento, tenho o objetivo de tornar o selo mais ativo e me apresentar no formato ao vivo e DJ set.”

Quais são os critérios que você usa para escolher os vocalista para seus tunes?

“É uma pergunta curiosa… Ao produzir um riddim por vezes já tenho a ideia do tipo de vocal que gostaria de ouvir no tune ou uma pequena ideia do timbra que gostaria de sentir no vocal. Não é uma ciência exata, apenas uma questão de gosto pessoal e do caminho que a música leva. Acredito que por vezes seja algo mais espiritual, há um click e você apenas sente isso.

No final das contas, penso que seja tudo uma questão de gosto pessoal e da própria sonoridade que se pretende criar e da mensagem que queira passar.”

Quais são os planos para 2017 e começo de 2018?

“Além do tema “African Roots”, que no momento está disponível, posso dizer que tenho alguns temas na linha para serem lançados no Huba, incluindo um novo tema com Trevor Roots, com o nome “InI Know”. O tune foi gravado durante a passagem do Trevor Roots aqui em Portugal, no ano passado. Também tenho alguns temas com novos cantores. Se tudo ocorrer bem lançamos mais dois discos este ano. Um possível lançamento digital ou em formato físico com um cantor dos Estados Unidos.

Em 2018 estamos preparando novas colaborações com Trevor Roots, Sista Awa e Junior Brooks (saxofonista do coletivo Huba). Em parelelo tenho desenvolvido meu projeto vocal, que também irá sair em breve através do selo Huba em formato digital. Tenho vários projetos em mente para o selo, aos poucos as parcerias vão sendo criadas, barreiras quebradas e o trabalho flui. É um trabalho longo e de muito aprendizado em todos os níveis. Dou graças por todo apoio demonstrado pelo público.”

Você acompanha os sistemas de som no Brasil? Há algum sound em específico que você gosta de acompanhar?

“Recentemente passei a acompanhar mais ativamente sounds como o Dubversão (SP) e o África Mãe do Leão (SP). Fui também introduzido recentemente a mais alguns nomes como Leão Conquistador (PE) e High Public Sound (SP). Conteúdos muitos fortes estão vindo do Brasil, uma mensagem muito forte tanto em produções como nos próprios sistemas de som.

Tem sido um prazer acompanhar o movimento daqui de Portugal. A família daqui está atenta. Penso que falo por todos e irei continuar seguindo, sem dúvidas!”

Links relacionados: Ghosttown Rockers, Mystic Fyah, Simply Rockers, NuBai Sound, Roots Dimension, Backyard Sound, Youth Culture Hi Fi, Rig Smith, Trevor Roots, Sista Awa, Dubversão, High Public Sound, Africa Mãe do Leão, Leão Conquistador, Nucleus Roots.


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Leonardo Silva [Jah Leo]

Leonardo Silva [Jah Leo]

Iniciei minhas atividades no reggae ao ser um dos fundadores o Reggae pelo Reggae em 2012, onde atuei até Julho de 2016 como Diretor de Conteúdo. No começo dos estudos sobre reggae, me encantei com a cultura dos sistemas de som, fiz parte do Vietcong Promotion até que decidi construir o Leão Conquistador. Também fundei o Rockerstime e a Subcultura, loja online de discos de vinil que distribui para todo o Brasil.
Leonardo Silva [Jah Leo]